Quando o cristalino faz parte do glaucoma
O cristalino — a lente natural do olho, que fica opaca na catarata — aumenta de espessura com a idade. Em olhos mais curtos (comuns em quem tem hipermetropia), ele empurra a íris para a frente e estreita o ângulo por onde o líquido do olho é drenado. É o mecanismo do glaucoma de ângulo fechado.

Ângulo aberto
O líquido do olho chega livremente à malha de drenagem, no ângulo entre a íris e a córnea.

Ângulo fechado
A íris, empurrada pelo cristalino, bloqueia o ângulo e dificulta a drenagem — a pressão sobe.
Nesses casos, a cirurgia de catarata — ou até a troca do cristalino ainda transparente — abre o ângulo e costuma baixar a pressão de forma importante. Um grande estudo internacional (EAGLE, publicado na revista The Lancet em 2016), com pessoas acima de 50 anos com ângulo fechado e pressão elevada, mostrou que retirar o cristalino cedo deu melhores resultados do que começar o tratamento com laser. Por isso, no ângulo fechado, a cirurgia muitas vezes é indicada mais cedo — como parte do tratamento do glaucoma, e não só para melhorar a visão.
O que muda na cirurgia de catarata de quem tem glaucoma
A técnica é a mesma, mas o olho com glaucoma pede um planejamento mais cuidadoso antes, durante e depois da cirurgia.
Antes
- Pressão controlada. Em glaucoma avançado, o plano inclui medidas para evitar picos de pressão no pós-operatório.
- Superfície do olho saudável. Anos de colírios podem causar olho seco e irritação, que alteram o cálculo da lente. Às vezes é preciso tratar a superfície ou ajustar os colírios antes de operar.
- Pseudoexfoliação. Comum em quem tem glaucoma, ela enfraquece as fibras que sustentam o cristalino e faz a pupila dilatar menos — o que exige técnica e materiais específicos.
- Cirurgia de glaucoma prévia. Em quem já fez trabeculectomia ou implante de drenagem, a cirurgia de catarata pode interferir no funcionamento dessa via e precisa ser planejada e acompanhada de perto.
- Exames de referência. Campo visual e OCT recentes ajudam a documentar como estava o glaucoma antes da cirurgia.
Depois
- A pressão pode subir nos primeiros dias. Isso pesa mais em olhos com glaucoma avançado — por isso as revisões iniciais são mais próximas.
- Colírios de corticoide, usados no pós-operatório, podem elevar a pressão em algumas pessoas. A pressão é acompanhada enquanto eles estiverem em uso.
- Não suspenda os colírios de glaucoma por conta própria. O médico orienta quais manter, suspender ou trocar.
- Novos exames de referência. Após a recuperação, campo visual e OCT são repetidos: a visão mais nítida muda os resultados, e esses passam a ser a nova base para acompanhar o glaucoma.
- Menos colírios, às vezes. Se a pressão cair após a cirurgia, pode ser possível reduzir a medicação — uma decisão baseada nas medidas, não na expectativa.
Tratar o glaucoma junto com a catarata
Quando a pressão precisa baixar além do que os colírios conseguem, o tratamento do glaucoma pode ser planejado junto com o da catarata — antes dela ou na mesma cirurgia:
Laser SLT antes da cirurgia
A trabeculoplastia seletiva a laser (SLT) é feita no consultório, em poucos minutos, e melhora a drenagem natural do olho. Pode ser realizada antes da cirurgia de catarata para baixar a pressão e reduzir a necessidade de colírios. O efeito pode diminuir com os anos, e o laser pode ser repetido.
Facotrabeculectomia
Cirurgia de catarata associada à trabeculectomia, que cria uma nova via de drenagem. Reservada para pressões mais altas ou glaucoma mais avançado, quando é preciso chegar a uma pressão bem baixa.
Cirurgias em etapas
Em alguns casos, é melhor operar separadamente — primeiro o glaucoma e depois a catarata, ou o contrário —, conforme a urgência de cada doença.
A escolha depende do tipo e do estágio do glaucoma, da pressão que se quer atingir (a pressão-alvo), do número de colírios e da saúde do olho. Conheça também as opções de tratamento do glaucoma.
A escolha da lente no olho com glaucoma
A lente implantada na cirurgia fica no olho para a vida toda, e o glaucoma pode avançar com os anos. Por isso, a escolha considera o olho de hoje e o de daqui a 10 ou 20 anos. Em geral:
- Monofocal e monofocal plus (como a TECNIS Eyhance) são as opções preferenciais, em qualquer estágio da doença, por preservarem melhor o contraste.
- Lentes de foco estendido que não dividem a luz (como TECNIS PureSee e Alcon Vivity) podem ser discutidas em alguns casos.
- Lentes difrativas (trifocais como Odyssey, PanOptix e AT LISA tri, e também a AT LARA) são contraindicadas, por reduzirem a sensibilidade ao contraste.
- Astigmatismo pode ser corrigido com lentes tóricas, e a monovisão é uma alternativa para diminuir a dependência dos óculos sem lentes difrativas.
Monofocal, monofocal plus, foco estendido e trifocal: como cada uma funciona, exemplos de lentes, simuladores de visão, limitações e contraindicações.
Perguntas frequentes
Operar a catarata cura o glaucoma?
Não. A cirurgia pode baixar a pressão — às vezes bastante, no ângulo fechado —, mas o dano que já existe no nervo óptico não se recupera, e o acompanhamento do glaucoma continua por toda a vida.
Vou poder parar os colírios depois da cirurgia?
Às vezes é possível reduzir, principalmente quando a cirurgia é combinada com um procedimento para glaucoma. A decisão depende das medidas de pressão após a recuperação. Nunca suspenda os colírios por conta própria.
Tenho glaucoma avançado. Posso operar a catarata?
Sim, mas exige cuidados extras já na indicação da cirurgia. Muitas vezes, opta-se pela cirurgia combinada, que trata a catarata e o glaucoma no mesmo ato. O acompanhamento nos primeiros dias também é mais próximo.
Preciso refazer os exames de glaucoma depois da cirurgia?
Sim. Depois da recuperação, o campo visual e o OCT são repetidos para servir de nova referência, já que a visão mais nítida muda os resultados.
Tem glaucoma e catarata?
Avalie as duas doenças em um único plano com o Dr. Pedro Ferrari, especialista em glaucoma em Campinas.
Agendar consultaReferências
- Azuara-Blanco A, et al. Effectiveness of early lens extraction for the treatment of primary angle-closure glaucoma (EAGLE): a randomised controlled trial. The Lancet, 2016.